Alternativa “A”, de “Amor”

Catarina despertou desorientada, visão embaçada, com frio. A luz fraca do ambiente aumentava de intensidade gradativamente, acompanhando a recuperação dos sentidos dela. Assim que o sistema detectou que Catarina estava lúcida, abriu a tampa metálica do casulo onde ela estava deitada. O cérebro dela saía da confusão e ela começava a se recordar. A viagem terminou, pensou. Terminou.

Ergueu-se e saiu do casulo sem muita dificuldade. O sistema de suspensão e reanimação da vida funcionara perfeitamente, deixando o corpo dela na idêntica condição anterior ao momento da suspensão.

Os outros casulos estavam fechados. Ao seu lado o casulo de Emerson, seu marido. Nos outros dois pares de casulos estavam, à esquerda, o casal Márcia e Anthony, e, à direita, o casal Juçara e João Paulo. Como capitão da missão, seu casulo era o primeiro a abrir.

Catarina confirmou na tela o período que se passara: 72 anos. Alguma coisa havia saído errada, a marca deveria ser perto de cem anos, era o tempo de viagem da Terra até a colônia Hawking. Digitou os comandos para liberar o acesso ao computador.

— Computador, por que me reanimou antes do término da viagem?

— A nave não partiu do planeta.

Não partiu? Era prática padrão que os tripulantes ficassem em estado de suspensão dentro da nave a partir de uma semana antes do lançamento. Mas 72 anos? Catarina pediu para o computador abrir os anteparos das janelas.

— Não permitido. O nível de radiação do planeta ainda está muito elevado.

Nível de radiação?

— Computador, mostre-me na tela o exterior da nave.

Catarina viu a imagem do deserto, onde ficava a base de lançamento, mas o céu estava todo coberto por nuvens. Ela nunca vira nuvens nessa região. Havia reclamado mais de uma vez ao comando da missão por causa do racionamento de água. Que idéia construir a base no meio do deserto, só por estar no melhor ponto para lançamentos de foguetes.

Conforme as imagens mostravam outros pontos externos da base, Catarina confirmou que algo estava muito errado. Não havia ninguém circulando, nenhum movimento. E quase tudo estava coberto de neve. Neve no deserto! Pediu para o computador exibir imagens do interior da base. Somente esqueletos em uniformes eram vistos, caídos no chão ou debruçados nos painéis. Catarina não acreditava em seus olhos.

— O que aconteceu aqui, computador?

— Há 72 anos a base foi inundada por radiação, possivelmente todo o planeta, de acordo com os sensores de longo alcance. Origem desconhecida. Equipamentos da nave foram afetados, mas não o sistema de suspensão de vida. O sistema de auto-recuperação restaurou todos os equipamentos em 26 meses. Há também indícios de diversos agentes patogênicos desconhecidos na atmosfera. Morte quase instantânea dos humanos, dentro da área verificada pelos sensores. A vedação da nave funcionou perfeitamente.

O computador não despertou antes os astronautas porque concluíra que seria melhor manter a suspensão. Os corpos não tinham sido afetados e uma avaliação correta e precisa de quanto tempo demoraria para as condições externas não serem nocivas tomaria algum tempo.

As tentativas do computador de comunicar-se com o exterior não se mostraram frutíferas, inclusive as feitas naquele momento por Catarina. Nenhuma resposta.

— E porque me despertou agora? Os níveis de radiação ainda estão altos segundo esta tela.

— Há uma decisão que só pode ser tomada pelo capitão da missão. Está fora de minha competência.

O computador exibiu o gráfico da estimativa de quando o planeta deveria estar em condições de habitação humana. O prazo ultrapassava a capacidade de cada casulo em manter a animação suspensa de seu ocupante. Toda a energia e outros recursos seriam suficientes para manter apenas dois casulos.

— Seu casulo será um deles, disse o computador. Essa é a diretriz de salvamento. É obrigatória. Você terá que escolher qual o outro casulo que será mantido. Os outros quatro serão desativados e seus ocupantes serão sacrificados.

Catarina sabia que não adiantava reanimar todos naquele instante. Seria um gasto adicional de energia e, ela conhecia bem a tripulação, iria surgir uma grande discórdia. Essa discórdia ocorreria porque ninguém desejaria sacrificar os outros colegas. Se têm que morrer, melhor que seja durante o longo sono da animação suspensa, sem saber o que aconteceu. A escolha deveria ser somente dela: quem viveria, quem morreria.

Poderia decidir pelo marido, mas não o amava. Era um casamento por conveniência dela, o marido sequer desconfiava da inexistência de amor. Mulheres são boas em dissimulação. Casara porque somente casais podiam viajar para as colônias, que estavam em formação. E o sonho de Catarina era viver fora da Terra, conhecer outros sistemas solares. Nem que para isso tivesse que viver com um homem ao lado.

Aproximou-se do casulo de Juçara e, pela pequena janela na tampa, ficou a olhá-la com carinho. Lembrou-se de como eram macios os lábios dela, das freqüentes ocasiões em que compartilharam a mesma cama e gritaram de prazer juntas. Um romance com o gosto suculento do proibido. Um arrepio percorreu-lhe o corpo e sentiu-se excitada.

Sentou-se e ficou a pensar. Depois de meia hora, instruiu o computador:

— Mantenha o casulo da tripulante Juçara ativo. Registre que é minha escolha com base em critérios técnicos de competência para as novas condições que se apresentam, face os conhecimentos e habilidades da tripulante. Registre também meu pesar com o sacrifício dos outros tripulantes, principalmente o do meu marido.

O computador confirmou o recebimento da instrução. Desativou os casulos, exceto o da Juçara, sem iniciar o procedimento de reanimação. Assim, os ocupantes morreriam imediatamente, sem qualquer tipo de dor.

— Computador, e o sêmen congelado?

— Permanecerá congelado. A diretriz de salvamento permite descartá-lo somente se não houver necessidade dele.

Ótimo, pensou Catarina, dirigindo-se ao casulo da Juçara.

O sêmen congelado era de terceiros, só era utilizado no caso de morte de tripulantes masculinos ou se fosse recomendável maior diversidade genética em gerações futuras dos colonos. A conservação dele requeria consumo irrisório de energia.

Com o sêmen congelado vamos poder ter muitos filhos quando acordarmos desse longo sono, minha querida, pensou, ao pousar a mão no casulo da Juçara. Sonharei com você.

Catarina ia dar um tenro beijo no casulo da amante, antes que retornasse para seu próprio casulo para voltar à animação suspensa, quando foi interrompida pelo computador.

— Simulação encerrada.

— Simulação? Que simulação?

A porta se abriu. Entraram o comandante da base e equipe.

— Parabéns, capitão, você está aprovada para a missão.

Então era isso, pensou ela, mais um teste.

Sua tripulação não estava nos casulos, eram bonecos com feições perfeitas a ocupá-los. As imagens que ela tinha visto na tela haviam sido simuladas pelo sistema.

— Deve ter sido difícil, continuou o comandante, tomar a acertada decisão de escolher a tripulante que reúne as mais úteis aptidões para ajudar-lhe no planeta no futuro. Abdicar-se de seu marido deve ter doído muito para você.

Os demais tripulantes, agora os verdadeiros, entraram na nave. O marido aproximou-se e disse:

— Querida, sei que foi difícil pôr critérios técnicos acima de seus sentimentos.

Ela o abraçou forte, mas seus olhos, por sobre o ombro direito dele, encontraram-se com os da Juçara, dessa vez a verdadeira Juçara, em pé próximo à porta. E pareceu-lhe ver um brilho maior no olhar dela, como se o amor dela não fosse mais o mesmo, mas tivesse crescido em intensidade.

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